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Por Quinn - um conto da Slider Wade Wells - Parte II e final
Autora: Maria Cecília Barbosa de Lima.

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"Pelo meu poder e autoridade, pela minha tarefa e destino, e em nome do Multiverso que jurei manter e proteger, eu decido e realizo o que deve ser feito: Quinn morrerá agora".
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Foi naquela noite que aconteceu - a mesma sobre a qual Rembrandt Brown escreveria uma canção pouco depois, falando sobre um milagre e uma tragédia.

Rembrandt questionava sua sanidade por ter perdido o vórtice - e, sentado diante
de uma fogueira, tentando aquecer mais a alma do que o corpo, perguntava-se como
seria viver as próximas duas décadas naquele mundo.
O Prof. Maximilian Arturo continuava se recuperando. Mas Quinn estava morrendo. Wade adormeceu abraçada a ele, quando o cansaço e a tristeza tornaram-se mais forte que ela, e a última palavra de uma de suas orações foi interrompida bem no meio.
Então Wade sonhava, mas era um sonho sombrio e confuso, como se ela ainda estivesse acordada, mas o mundo parecia como que embaçado, desbotado, uma mistura caótica de cores que se deformavam - e tudo ameaçava se desfazer diante dela. A jovem olhou para Quinn e retomou suas orações. 
Foi no instante em que seu sonho mudou e Wade viu algo que assombraria sua memória por todo o tempo que lhe restava de vida: uma figura enorme -que irradiava grandeza e poder, mas também crueldade - aproximou-se de Quinn. Fosse o que fosse aquela coisa, trazia na mão algo que, há princípio Wade não conseguia definir.Porém, logo daquele objeto partiu um leve brilho metálico, que por uma fração de segundo, lembrou-a de uma estrela que ela observava em sua infância. Aquela pequena luz começou 
a tornar as formas do mundo dos sonhos de Wade mais fáceis de serem entendidas. Logo ela
duvidou de seus próprios olhos, pois ali estava um anjo, que segurava uma espada erguida
sobre o adormecido e indefeso Quinn. E o coração de Wade quase explodiu de amor e desespero e ela gritou para que o anjo parasse e sua voz soou mais elevada do que qualquer outra coisa e, por um instante, a dor contida nela pareceu ser grande o bastante para que todo o Universo se condoesse daquela moça. 
No momento seguinte, o sonho de Wade se fragmentou e tudo ficou escuro e sumiu.
Ela abriu os olhos num ambiente que lembrava uma grande sala escura (e Wade se aterrorizou ao perceber que aquele lugar parecia não ter limites e ela poderia caminhar em qualquer direção por uma eternidade e ainda assim não encontrar qualquer parede). Porém, ela percebeu que havia uma pequena luz, porém forte o bastante para que ela pudesse enxergar seu próprio corpo (a jovem quase se indagou de onde aquela luminosidade viria, mas uma certeza nascida em algum lugar de seu espírito lhe disse que ela estava sendo iluminada pelo se próprio coração).
Logo Wade percebeu que não estava sozinha: naquele lugar estranho outras duas pessoas 
estavam encarando-a (e seus olhares eram uma mistura de deslumbramento e reprovação) 
e eles também tinham luz própria. O primeiro deles era o anjo que Wade acabara de ver
e dele partia um brilho de crueldade e morte. A outra era uma mulher e era desconcertante
olhar para ela, pois não se podia definir se era feia ou bonita, nem, exatamente como 
eram os traços de seu rosto ou a idade que tinha. Vestia um longo vestido branco, de 
mangas também compridas e cruzara os braços enquanto olhava para Wade. Daquela mulher 
vinha uma luz azulada, de autoridade e inevitabilidade.
_Eu... Ainda estou sonhando, não é? - indagou Wade, quase balbuciando as palavras.
_Tecnicamente sim - respondeu a mulher - Mas, esta não é a dimensão de sonhos a qual está acostumada. Eu defino onde estamos como uma secção entre os instantes da eternidade, 
um intervalo, um ponto de neutralidade no curso do tempo. Trouxe você aqui para que possamos resolver esse impasse.
Uma centena de perguntas lutavam dentro de Wade, almejando escaparem de sua boca, todavia uma foi mais forte que as demais:
_Onde está Quinn?
A mulher olhou para ela, como se acabasse de escutar a mais improvável das verdades e sorriu - e aquilo pareceu estranho demais para Wade, pois, de algum modo, ela tinha certeza, aquela figura a sua frente talvez nunca antes tivesse rido:
_Você é notável e realmente o ama tanto. Ele continua no 
mundo físico, adormecido, febril e morrendo - como deve ser.
_Não! - Wade percebeu-se gritando - Eu não quero que ele morra!
_Você não têm essa escolha. Você nem mesmo perguntou quem somos... - e apontou para o anjo - Ele é o Anjo da Morte - e depois para si mesma - eu 
sou o Anjo do Destino. Quanto a nossos nomes, não importam, porque você não conseguiria 
pronunciá-los.
O que Wade disse a seguir soou como uma bobagem, é verdade, mas ela não conseguiu evitar:
_Você não tem asas como ele.
A expressão no rosto do Anjo do Destino mudou e Wade não 
conseguiu sequer imaginar o que se passaria pela mente daquela criatura:
_É uma forma bruta de simbolismo, numa escala cósmica. O Multiverso tem predileção por 
esses jogos de metáforas. "O Destino não precisa de asas pois pode alcançar você onde 
quer que esteja". Mas deixemos isso de lado. Você é a slider Wade Wells e está aqui 
devido ao paradoxo que provocou.
_Paradoxo? - Wade cada vez mais entendia menos do que estava acontecendo e desejava 
acordar e abraçar-se a Quinn. 
_Sim. Desde o início do Multiverso, ninguém jamais conseguiu fazer o que você fez hoje
- comentou o Anjo do Destino, com um tom que misturava surpresa e desaprovação.
_Mas... Eu não fiz nada... Ele (e ela apontou para o Anjo da Morte)... Ele ia matar Quinn... 
Eu gritei e....
_E você deteve a mão da Morte. Consegue conceber o que fez? - Indagou o Anjo do Destino 
- Nunca, em toda a eternidade, isso havia acontecido. 
Agora, a própria estrutura do 
Multiverso foi seriamente ameaçada por que uma mortal, tomada por um sentimento maior do que seria possível para um mortal, provocou o questionamento de uma das verdades básicas que sustenta toda a Existência.
_Talvez, devêssemos matá-la. Isso encerraria o paradoxo -
ameaçou o Anjo da Morte, que até aquele momento não havia se pronunciado.
_Não! - e o Anjo do Destino virou-se para ele, com uma voz de comando e reprovação 
que assustou Wade - Há regras que precisam ser observadas.
E, em seguida, o Anjo do Destino, voltou-se para Wade:
_Quinn Mallory agora vive num tipo de "instante suspenso",algo que não deveria existir, 
uma aberração no curso do Destino. Embora quase inimaginável, esta situação foi prevista... 
Há muito mais tempo do que ... Do que eu conseguiria explicar a você... Por isso...
O Anjo do Destino ficou em silêncio por alguns instantes, como alguém que estivesse 
escolhendo cuidadosamente as palavras que iria dizer:
_Bem, eu tenho um Multiverso para manter funcionando e preciso da sua ajuda.
_Minha ajuda? Como? - Indagou uma confusa Wade.
_Primeiro quero que você entenda uma coisa: uma de 
minhas tarefas é observar cada instante de cada criatura, em todos os universos. E, de 
todas elas, você é uma das que mais gosto. Eu poderia fazer isto pelo modo mais 
rude, mas... Por favor, ajude-me a usar o modo mais gentil.
_Eu não entendo o que você quer dizer. - Comentou Wade.
_Não - respondeu o Anjo do Destino - Você não quer entender. É você que está provocando 
este paradoxo. Deixe que Quinn morra.
_Não! - gritou Wade - Eu o amo, não vou deixá-lo morrer!
_E você prefere arriscar a existência de todas as criaturas vivas e não vivas por ele? 
Consegue conceber os danos que sua atitude irá provocar? - Questionou o Anjo do Destino 
e Wade curvou a cabeça, chorando de medo e vergonha, mas também de amor.
_Deve haver alguma solução... Eu não posso deixá-lo morrer. - disse Wade e, no momento 
seguinte, ergueu a cabeça e, tomada por uma idéia, olhou com determinação para o Anjo 
do Destino:
_Você pode resolver isso! Você pode curá-lo!
_Não! Isso só aumentaria o paradoxo. Gosto muito de você, mas não vou arriscar o 
Multiverso. Deixe-o morrer para que tudo volte ao seu curso normal - sentenciou o Anjo do Destino.
Wade permaneceu em silêncio. Ela chorava e tremia, procurando em sua mente e coração 
uma resposta para tudo aquilo, pois, acontecesse o que acontecesse, ela não permitiria 
que Quinn morresse.
Então, pela segunda vez o Anjo da Morte interviu, ergueu a espada e avançou contra Wade:
_Já estou cansado desta conversa interminável. Ela morre agora e ele morre também e tudo 
volta ao normal.
O Anjo do Destino gesticulou e o Anjo da Morte se deteve e baixou a espada e depois 
curvou a cabeça.
_Você sabe que não é este o momento em que ela deve morrer. Se tentar ir contra isso, 
irá provocar um outro paradoxo. Se fizer isso, eu desfaço você e terei de criar um 
outro Anjo da Morte para ocupar seu lugar.
O Anjo do Destino voltou-se uma vez mais para Wade:
_Não se preocupe. Ele não vai incomodar mais. Wade, 
espero que entenda o que vou fazer e que um dia me perdoe.
Tendo dito estas palavras, o Anjo do Destino começou a brilhar de uma forma terrível e sua voz mudou para algo insensível e cruel:
_Pelo meu poder e autoridade, pela minha tarefa e destino, e em nome do Multiverso 
que jurei manter e proteger, eu decido e realizo o que deve ser feito: Quinn morrerá agora.
E o Anjo da Morte sorriu e ergueu sua espada, porém Wade, em desespero, gritou para eles. 
E os anjos estremeceram e recuaram e o brilho que envolvia o Anjo do Destino regrediu 
até quase se apagar.
_Como ousa? - Ela indagou - Não percebeu? O próprio 
Multiverso se contraiu, compartilhando a dor que vejo em seu coração. Não abuse 
da sorte, pequena Wade, meu afeto por você não irá protegê-la para sempre.
_Você... Você disse que não me mataria.
_Há infinitas formas de punição. Muitas delas bem piores do que a morte - respondeu o Anjo do Destino.
_Eu... Tenho uma idéia. É como nos filmes, não é? Naquele filme que eu assisti com Quinn, 
três anos atrás no meu aniversário... - lembrou Wade.
_Sim - completou o Anjo do Destino - Naquele drive-in. 
Você se abraçou com ele no final do filme e chorou. Ele teve vontade de te beijar, mas 
não coragem. Eu estava lá com vocês. Eu estou sempre com você.
_Então, você me entende. É como no filme. Toma minha vida, me mata e deixa Quinn viver. 
Isso resolveria tudo, não é?
A inesperada proposta de Wade atingiu o Anjo do Destino 
com um sobressalto e ela demorou alguns momentos para responder:
_Não diga isso. Não precisa ser assim. Escute: eu 
conheço todos os futuros, de todas as pessoas. Você tem uma vida maravilhosa pela frente. Vai voltar para casa, vai fazer coisas por si mesma e pelo mundo como você jamais sonhou. Será uma vida longa e feliz, acredite. E, se é amor que você quer... Em mais alguns dias, você estará em seu próprio mundo e lá irá encontrar alguém que... Fará Quinn se tornar não mais do que... Uma lembrança pálida. Por favor, não morra. Continue para viver esse futuro.
Wade ponderou por alguns instantes e, em seguida, decidiu seu destino para sempre:
_Esse futuro seria uma vida sem Quinn; esse cara de quem você falou, não seria Quinn. 
Eu recuso o que você está me oferecendo. O Anjo do Destino olhou para Wade com uma tristeza como ela jamais vira antes:
_Wade, não faça isso. Ele é apenas humano. Não merece um sacrifício desses. Por favor, diga que não é isso que você quer.
_Se você realmente me conhecesse, entenderia o que estou fazendo... Eu morro, Quinn vive. 
É assim que deve ser.
O Anjo do Destino contemplou Wade em silêncio por alguns momentos, como se procurasse 
algum argumento capaz de modificar a decisão da jovem, porém, por fim, disse:
_Muito bem. É uma pena. Eu tinha planos para você. Um dia você seria o novo Anjo do Destino, mas não adianta, até mesmo eu devo me curvar a inevitabilidade. Sabe, eu estava lá quando conceberam a idéia que se tornaria você - eu te explicaria isso no futuro, que todos 
mortais começam como uma idéia. Talvez, eu devesse ter intervido e não deixado que 
te dessem um coração.
Então o Anjo do Destino voltou-se para o Anjo da Morte e ordenou a ele, enquanto 
dos olhos dela escapava uma lágrima:
_Você sabe o que deve fazer.
E o Anjo da Morte, tomado por uma alegria selvagem, ergueu sua espada e avançou sobre Wade (e ela murmurou o nome de Quinn)...


********************


Era uma manhã tão bela quanto aquele mundo há muito não vira. Quinn despertou. A 
febre e o vírus haviam ido embora. Seu corpo ainda estava um pouco fraco, mas ele 
se esforçou e se ergueu. Procurou por Wade e chamou por ela, mas logo percebeu 
que estava sozinho na caverna.Foi lá pra fora. Parecia um dia normal na aldeia. Algumas crianças corriam, brincando, de um lado para o outro, pessoas cuidavam de seus afazeres. Mais a frente, ele viu o Professor Arturo, de pé, saudável, orientando um grupo de homens e mulheres, que estavam construindo algum tipo de máquina. O Professor estava tão absolvido em sua tarefa que não percebeu a aproximação de Quinn, mas Rembrandt Brown, que estava logo atrás, voltou-se para o jovem e correu e o abrançou-o com alegria e disse:
_Quinn! Você acordou! De volta ao mundo dos vivos! De volta ao mundo dos vivos!
Quinn agradeceu a alegria de Rembrandt e já ia fazer a pergunta que tanto o perturbara, 
quando seu amigo o soltou e interrompeu:
_Não é incrível? Quando se recuperou, o Professor estava com uma idéia maravilhosa. 
Ele disse que sabe como nos mandar de volta para casa. Estamos trabalhando nisso. 
Vamos voltar para casa, Quinn! Pra casa! Só mais alguns dias, só isso!
O entusiasmo de Rembrandt era tocante, mas o coração de Quinn estava perturbado:
_Rembrandt ,- disse ele - eu tive um sonho horrível... Algo muito ruim acontecendo com 
Wade. Aí acordei. Onde está ela? Rembrandt baixou a cabeça e a tristeza que Quinn viu 
nele fez seu espírito doer. 

_Rembrandt... Onde está Wade? Eu preciso vê-la.
Rembrandt ergueu os olhos diretamente para o rosto de 
Quinn e disse: _Meu amigo, é melhor você sentar. Tem uma coisa que você precisa saber... Por Deus, só gostaria que não fosse eu que tivesse de te contar isso...

FIM.

 
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